Archive | agosto, 2011

Cinema e Vida

25 ago

“A tentativa mais bem-sucedida de retratar múltiplas realidades alternativas dentro dentro de uma história linear e coerente é a comédia de Harold Ramis, ‘Feitiço do Tempo’ (Groundhog Day, 1993), na qual um egoísta e amargo meteorologista chamado Phil é obrigado a reviver um único dia de inverno numa cidade caipira da Pensilvânia até que ele faça tudo certo. O filme funciona em parte porque nunca tenta explicar a razão de Phil acordar sempre no mesmo dia”. p. 48 Livro “Hamlet no Holodeck”, Janet Murray

Não precisa explicar, porque muitos de nós já tivemos – ou temos – a sensação de “pararmos no tempo”, tentando reviver, refazer, um trecho do nosso passado que consideramos importante, e que achamos deveríamos ter feito “a coisa certa”.

“Danny Rubin e Hal Ramis, o escritor e o diretor de “Feitiço do Tempo”, tiveram ade brigar com o estúdio para evitar a inclusão de uma “maldição cigana” no filme, que explicaria os apuros de Phil. A premissa de Rubin partiu da ideia de mudar as regras da vida para ‘o tipo de sujeito … que parece simplesmente incapaz de deixar sua adolescência para trás. Ele se perguntava: ‘Se alguém assim pudesse ter uma vida longa o bastante, será que conseguiria superar isso?… Em que momento ele ficaria tão entediado consigo mesmo que tentaria se tornar uma pessoa diferente?'” (v. Lippy, “A Talk with Danny Rubin”, 183, e Lippy, “Harold Ramis on Groundhog Day”, 53).

Quantos de nós não agimos assim? Permanecemos no limiar da vida adulta, sem ter a coragem de abandonar a área próxima da soleira da porta.

Comunicação e ensino

13 ago

Meu trabalho de conclusão de curso foi uma revista na aŕea de educação. Era uma revista que propunha usar o jornalismo como ferramenta de ensino. Então cada uma das matérias abordava uma disciplina diferente: para abordar o inglês, por exemplo, fiz uma matéria sobre intercâmbio, coloquei uma versão em português numa página e uma versão em inglês na página ao lado, assim o leitor poderia aprender enquanto lia a revista. Na matéria sobre portugues, escrevi um texto e escondi alguns erros no meio, para que o leitor os encontrasse.

Havia tambem a facilidade de misturar mais diciplinas numa só matéria, como redação, literatura e história. Uma das “materias” era na verdade um trecho do livro “Decamerão” sobre a Peste Negra, e ao final, além de um glossário com o significado das palavras mais difíceis, havia também algumas perguntas estimulando o leitor a escrever.

A revista era naturalmente voltada a estudantes do ensino médio. Mas a proposta poderia ser ampliada para outras series.

 

Das dificuldades de ser jornalista – ou de viver de jornalismo

13 ago

Eu acho que a maior dificuldade da profissão de jornalista não é nada ligado à “técnica” da profissão. Não é nada relacionado às técnicas de entrevista e reportagem, que a gente aprende na faculdade, nem a estrutura de uma matéria, nem enquadramentos de câmera, nem edição, nem fotografia. Não é nem mesmo a sociologia, a psicologia da comunicação, a linguística, nem todas as humanidades que aprendemos, ainda que eu ache de suma importância aprender tudo isso.

Acho que a dificuldade maior em nossa profissão é ir pra rua, para o mundo, e captar a realidade, se confrontar com ela, se encontrar com esta realidade tão complexa e que nos deixa perplexos.

Lembro que uma das minhas primeiras entrevistas – eu ainda estava na faculdade – foi em uma ONG que trabalhava com adolescentes infratores. Eu e minha colega pedimos para entrevistar dois meninos cujo caso fosse particularmente difícil, para colher depoimentos para a matéria. O coordenador sorriu, menou a cabeça dizendo que compreendia, levantou-se. Voltou com dois rapazes negros, um mais franzino, o outro mais forte, que sentaram-se nervosos em nossa frente.

Não tinham mais de 15 anos. O mais magrinho começou a falar, contou sua história: aos 11 anos, envolveu-se com um assassinato, depois com prostituição, roubos. O mais forte estava acanhado demais para falar. O outro o estimulou: “Vai, rapaz!”

Suando muito, visivelmente nervoso, o rapaz mais forte começou a falar diante do gravador da gente, como se fosse uma ocasião extremamente especial. Até hoje, nunca entendi por que ele estava tão nervoso. Parecia que nunca tinham parado para lhe dar ouvidos.. para que ele pudesse se expressar. Não sei, não estou dentro do coração dele para saber.

De repente, durante aquela entrevista, mesmo curta, senti uma coisa estranha. Pensei: “E se fosse eu na situação dele?” Senti que o que nos separa eram as circunstâncias, e isso mexeu muito comigo. Entendi que ali haviam garotos que provavelmente se tivessem tido uma família estruturada, apoio, segurança, escola e emprego, aleḿ de serviços básicos como moradia, segurança, alimentação, a vida deles seria muito diferente.

Só mais tarde compreendi que respondemos a estas desigualdades ou com o silêncio, ou com a crença de que “a gente tem o que merece”, muitas vezes baseada em crenças religiosas ou espirituais. Não sei até que ponto isto é verdade mesmo ou apenas a melhor explicação que encontramos para explicar o que não tem explicação.

É com isso e muito mais que o jornalista precisa trabalhar. Não é com leads, com técnicas de redação, não é com diagramções. Lidamos com “realidades”. Perplexidades.

Outra hora é o drama da vida, de todos os dias, que se desenrola diante de nós.

Entrevistei uma vez um fotógrafo já idoso. Ja no fim da entrevista, perguntei a ele se um dos seus filhos havia seguido a sua paixão por fotograar. Lentamente, seus olhos marejaram. A esposa, ao seu lado, me explicou que um dos filhos sim, mas que ele havia morrido num acidaente tempos atrás. Mostrou-me o retrato dele na parede, acima do móvel.

O que faz de um jornalista um grande jornalista, pra mim, não é o furo da reportagem, não é a pompa, nem a dicção, é a sensibilidade e o respeito pela dor alheia, pela realidade de cada um. Acredito que esta seja a verdadeira ética de nossa profissão. Como uma vez ouvi uma grande jornalista falar, o repórter “escuta”. Escuta, e depois escreve a sua versão. Tenta pintar um quadro que represente o que viu e ouviu. Isto é muito complexo. Acho que é o que torna nossa profissão ao mesmo tempo especial e dificil.

Quando eu estava na faculdade, costumava dizer que meu curso era fácil. Hoje vejo que não. Ele parece fácil, mas a verdadeira dificuldade dele aparece no dia-a-dia, na rua, nas entrevistas, nas pesquisas, na vivência da reportagem.

gente

12 ago

“empresas são abstrações. O que vale, de verdade, são as pessoas dentro delas e suas relações”.

Sílvio Meira

Do site http://www.agenciatudo.com.br