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Narrativas

27 set

“Em parte, questões sobre conteúdo e forma dos videogames são, de fato, indagações sobre o próprio poder da narrativa. A narrativa é um de nossos mecanismos cognitivos primários para a compreensão do mundo. É também um dos modos fundamentais pelos quais construímos comunidades, desde a tribo agrupada em volta da fogueira até a comunidade global reunida diante do aparelho de televisão. Nós contamos uns aos outros histórias de heroísmo, traição, amor ódio, perda, triunfo. Nós nos compreendemos mutuamente através dessas histórias, e muitas vezes vivemos ou morremos pela força que elas possuem.”

Janet Murray

Narrativas digitais

27 set

“A cada ano os estudantes chegam com uma preparação mais sofisticada para utilizar o computador não como um triturador de números, mas como um meio expressivo. Então, uma das surpresas foi a rapidez com que a narrativa interativa tem crescido como campo de aplicações práticas. Ela deixou de pertencer à Academia para fazer parte da cultura de massa.”

Janet Murray

Jornalismo enquanto narrativa

24 set

No nosso grupo de estudo do mestrado, Cris levantou uma questão importante a respeito da natureza da “imersão” enquanto experiência estética, e também sua relação com a narrativa, usando como base de referência a obra de Janet Murray, Hamlet no Holodeck, que dedica um capítulo à imersão enquanto experiência estética.

Afinal o que é imersão? Eu achava que imersão era tudo que nos permitia “mergulhar” numa história, por exemplo, livros e filmes nos permitem uma experiência imersiva muito forte. Visto por esta perspectiva, o conceito de imersão está ligado diretamente à presença de uma narrativa.

Então surgiu a questão: e se a pessoa está muito concentrada numa aula, por exemplo? É imersão? Eu achei que era. Também recebi uma propaganda via email, de um evento gastronômico que acontece em São Paulo este mês, e o texto nos propunha “cinco dias de imersão no universo gastronômico”.

Aí Brenda explicou que precisamos ter um ponto de referência para analisar o conceito de imersão, porque senão, até se você mergulha no mar pode ter uma experiência de “imersão” (e considerando que o conceito estético surgiu a partir da experiência física de mergulhar, de estar envolto em líquido). E que a referência no caso era a obra de Janet Murray, que liga a experiência imersiva a narrativas e acho que é assim porque ela delimita seu campo de estudo àquele do conceito de imersão enquanto “experiência estética”. Acho que neste campo, a narrativa deve estar presente.

Outra questão importante é a seguinte: “existe imersão por exemplo quando leio uma matéria de jornal?” Eu, como jornalista, afirmei que sim, pois o jornalismo também é narrativa, e uma matéria pode nos emocionar, nos indignar, enfim, nos permitir “mergulhar” no universo de significados que propõe.

Mas esta é uma visão pessoal minha, que naturalmente me foi passada por autores e professores, discursos que aprendi ao longo de minha formação. Quando entrei na faculdade de jornalismo, acreditava que um dos pilares da profissão era a objetividade e a imparcialidade. Mas na faculdade aprendi que embora eles permaneçam como indicadores de sentido, como ideais a serem buscados, são impossíveis de realizar completamente na prática. Seja porque não há tempo de apurar todas as informações necessárias, seja porque é da constituição humana não conseguir perceber a totalidade de uma situação ou acontecimento e de representar um cópia fiel da realidade.

Lógico que não se pode relativizar tudo. Existe um nível de jornalismo que se aproxima muito da objetividade, que é aquele puramente informativo, como por exemplo uma matéria com o título: “Publicado edital do mestrado em comunicação da UFPE”. Há pouco espaço para o viés pessoal da pessoa que redige uma matéria assim. Mas a maior parte do jornalismo não é esta, é justamente a que lida com discursos (e na matéria acima distingue-se naturalmente também um discurso, o de que a formação acadêmica é socialmente valorizada, mas é menos explícito que em outras matérias), com problemáticas sociais e que tem muito de opinião, de visão de mundo, de “recortes” da realidade.

Então ver o jornalismo como narrativa é uma forma de ver o jornalismo, não uma verdade absoluta. Eu aderi a este discurso, que vê o jornalismo como narrativa, por concordar mais com ele do que com os discursos (de alguns veículos de comunicação inclusive) que veem o jornalismo como verdade, como “representação da realidade social”. Eu acredito que não é assim, e que é perigoso pensar assim, porque fica-se à mercê do poder manipulador do jornalismo, hoje infelizmente compreendido muito mais como indústria, como mercado, desprezando a importância desta atividade no enriquecimento do debate social e portanto na busca de uma democracia mais verdadeira e inclusiva.

Na UFPE, eu percebi o curso de jornalismo com uma tendência muito voltada para ver o “invisível”, aquele que não tem “voz” na pauta da mídia, as pessoas que não aparecem (e por que não aparecem), o que está na periferia. Aprendemos a questionar os discursos mais aceitos, que na minha época (98 a 2003, mais ou menos), a gente aprendeu a chamar de “discurso hegemônico”. Mas esta é uma visão dentre outras, um discurso dentre outros, e de forma alguma deve ser compreendido como verdade absoluta.

Resumindo: O jornalismo é imersivo, é narrativa? Sim, o jornalismo é imersivo, de acordo com a visão que o considera uma atividade narrativa com características diferentes das obras narrativas artísticas, por exemplo, a literatura e o cinema.

Introdução ao Pensamento de Bakhtin – José Luiz Fiorin

19 set

Introdução

“…aquele que pratica um ato de compreensão

(também no caso do pesquisador)

passa a ser participante do diálogo”.

Bakhtin

Mesmo inconscientemente, quando compreendemos algo, estamos dialogando com este algo, participando de um diálogo, não necessariamente pacífico, como explica mais adiante o autor.

“Bakhtin apresenta um pensamento absolutamente original sobre a linguagem e podemos continuar a desenvolver seu projeto, seja operacionalizando melhor seus conceitos, seja refinando-os cada vez mais. nada mais antibakhtiniano do que a compreensão passiva ou a aplicação mecânica de uma teoria”. p.6

“responsividade de quem compreende” >> pressupõe um juízo de valor.

“O ouvinte ou o leitor, ao receber e compreender a significação linguística de um texto, adota, ao mesmo tempo, em relação a ele, uma atitude responsiva ativa: concorda ou discorda, total ou parcialmente, completa; adapta; etc. Toda compreensão é carregada de resposta”. p.6

Muita leitura pode levar à loucura?

15 set

Existe e sempre existiu uma noção do tipo “senso comum” de que quem estuda muito corre o (sério) risco de enlouquecer. É o mito de que excesso de leitura (e de estudo) enlouquece, do “cientista louco”, do “poeta triste”, do “filósofo anti-social” etc. Na minha cidade (Recife), no campus da Universidade Federal, existe um prédio alto, que infelizmente se tornou famoso por ser um lugar escolhido por muitas pessoas para se suicidar, algumas delas alunos do curso de filosofia, que fica no prédio. Também é lá que se estudam outras ciências humanas, como antropologia, sociologia, história. Talvez seja só porque o prédio é alto – mas existem outros prédios altos no campus, e niguém se joga deles.

De toda forma, meio que se cristalizou no imaginário popular que quem estuda muito pode ir parar no hospício. Noção que foi muito bem sintetizada por Cervantes com seu personagem Dom Quixote:

“Resumindo, ele se enterrou tanto em seus livros que passou as noites lendo desde o crepúsculo até a alvorada e os dias desde o amanhecer até o escurecer; e então de pouco dormir e muito ler seu cérebro secou e ele perdeu o juízo. Ele preencheu sua mente com tudo o que lera os livros, com encantamentos, disputas, batalhas, desafios, ferimentos, galanteios, amores, tormentos e outros disparates impossíveis; e impregnou tão profundamente sua imaginação com a crença de que todas as coisas imaginárias que lera eram reais, que … [ele] decidiu … tornar-se um cavaleiro errante e viajar pelo mundo de cavalo e armadura em busca de aventuras”.

Don Quixote de la Mancha

Ultimamente tenho estudado e lido tantos conceitos e “abstrações” que às vezes fico zonza e tenho medo de ficar doida também 🙂 Mas na verdade, a preocupação de que os livros possam “perturbar ” a mente, ao invés de alimentá-la, na minha opinião, tem sim muito de verdade. Isso ainda dá muita discussão interessante, que fica para outros posts.

Bakhtin

15 set

“…aquele que pratica um ato de compreensão

(também no caso do pesquisador)

passa a ser participante do diálogo”.

Bakhtin (1992)

Bakhtin é um excelente autor, que eu não lembro de ter estudado, mas provavelmente eu o li durante a graduação, só que não lembro. Minha graduação foi feita mais voltada para o mercado, eu queria muito mais aprender para ir trabalhar do que para realmente me aprofundar em todos os temas e autores, e conceitos, enfim, durante a graduação eu pensava pouco em seguir carreira acadêmica. Até tentei uma vez me candidatar a uma bolsa de iniciação científica, mas não passei na entrevista porque (acho) o professor teve a impressão de que eu lia pouco (realmente, eu lia pouco livros relacionados ao jornalismo. Estava ocupada lendo os livros de psicologia e filosofia do CFCH).

Enfim, aqui estou eu tentando o mestrado e a preparação para ele já é um curso em si.

Daí que ler Bakhtin de novo está com gosto de estar lendo pela primeira vez, ainda que o “discurso” dele me soe muito familiar. Mas deve soar familiar para qualquer pessoa que goste de linguagem. Simplesmente porque … ele está certo! Acho que ele acerta em muitas coisas, e em outras, seja pretensão minha ou não, acho que poderia melhorar. 🙂

“Toda compreensão de um texto, tenha ele a dimensão que tiver, implica, segundo Bakhtin, uma responsividade e, por conseguinte, um juízo de valor. O ouvinte ou o leitor, ao receber e compreender a significação linguística de um texto, adota, ao mesmo tempo, em relação a ele, uma atitude responsiva ativa: concorda ou discorda, total ou parcialmente; completa; adapta; etc. Toda compreensão é carregada de resposta. Isso quer dizer que a compreensão passiva da significação é apenas parte do processo global de compreensão. O todo é a compreensão responsiva ativa, que se expressa num ato real de resposta”.

A gente “responde” quando compreende, daí que todo ato de compreensão é um diálogo, tem uma natureza dialógica.

p.6 José Luiz Fiorin, “Introdução ao Pensamento de Bakhtin”.

Incentivo

15 set

“Há um século e meio atrás era impossível fazer um curso sobre romance. Os romances eram considerados uma estupidez e não se prestavam a estudos sérios.

Há cinquenta anos atrás era impossível fazer um curso de cinema. O filme era uma estupidez e não se prestava a um estudo sério.

Dez anos atrás não se podia estudar histórias em quadrinhos. No ano passado [1997], era impossível estudar videogames. Mas hoje [1998] é possível.”

Tomasula