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Narrativas

27 set

“Em parte, questões sobre conteúdo e forma dos videogames são, de fato, indagações sobre o próprio poder da narrativa. A narrativa é um de nossos mecanismos cognitivos primários para a compreensão do mundo. É também um dos modos fundamentais pelos quais construímos comunidades, desde a tribo agrupada em volta da fogueira até a comunidade global reunida diante do aparelho de televisão. Nós contamos uns aos outros histórias de heroísmo, traição, amor ódio, perda, triunfo. Nós nos compreendemos mutuamente através dessas histórias, e muitas vezes vivemos ou morremos pela força que elas possuem.”

Janet Murray

Introdução ao Pensamento de Bakhtin – José Luiz Fiorin

19 set

Introdução

“…aquele que pratica um ato de compreensão

(também no caso do pesquisador)

passa a ser participante do diálogo”.

Bakhtin

Mesmo inconscientemente, quando compreendemos algo, estamos dialogando com este algo, participando de um diálogo, não necessariamente pacífico, como explica mais adiante o autor.

“Bakhtin apresenta um pensamento absolutamente original sobre a linguagem e podemos continuar a desenvolver seu projeto, seja operacionalizando melhor seus conceitos, seja refinando-os cada vez mais. nada mais antibakhtiniano do que a compreensão passiva ou a aplicação mecânica de uma teoria”. p.6

“responsividade de quem compreende” >> pressupõe um juízo de valor.

“O ouvinte ou o leitor, ao receber e compreender a significação linguística de um texto, adota, ao mesmo tempo, em relação a ele, uma atitude responsiva ativa: concorda ou discorda, total ou parcialmente, completa; adapta; etc. Toda compreensão é carregada de resposta”. p.6

Muita leitura pode levar à loucura?

15 set

Existe e sempre existiu uma noção do tipo “senso comum” de que quem estuda muito corre o (sério) risco de enlouquecer. É o mito de que excesso de leitura (e de estudo) enlouquece, do “cientista louco”, do “poeta triste”, do “filósofo anti-social” etc. Na minha cidade (Recife), no campus da Universidade Federal, existe um prédio alto, que infelizmente se tornou famoso por ser um lugar escolhido por muitas pessoas para se suicidar, algumas delas alunos do curso de filosofia, que fica no prédio. Também é lá que se estudam outras ciências humanas, como antropologia, sociologia, história. Talvez seja só porque o prédio é alto – mas existem outros prédios altos no campus, e niguém se joga deles.

De toda forma, meio que se cristalizou no imaginário popular que quem estuda muito pode ir parar no hospício. Noção que foi muito bem sintetizada por Cervantes com seu personagem Dom Quixote:

“Resumindo, ele se enterrou tanto em seus livros que passou as noites lendo desde o crepúsculo até a alvorada e os dias desde o amanhecer até o escurecer; e então de pouco dormir e muito ler seu cérebro secou e ele perdeu o juízo. Ele preencheu sua mente com tudo o que lera os livros, com encantamentos, disputas, batalhas, desafios, ferimentos, galanteios, amores, tormentos e outros disparates impossíveis; e impregnou tão profundamente sua imaginação com a crença de que todas as coisas imaginárias que lera eram reais, que … [ele] decidiu … tornar-se um cavaleiro errante e viajar pelo mundo de cavalo e armadura em busca de aventuras”.

Don Quixote de la Mancha

Ultimamente tenho estudado e lido tantos conceitos e “abstrações” que às vezes fico zonza e tenho medo de ficar doida também 🙂 Mas na verdade, a preocupação de que os livros possam “perturbar ” a mente, ao invés de alimentá-la, na minha opinião, tem sim muito de verdade. Isso ainda dá muita discussão interessante, que fica para outros posts.

Bakhtin

15 set

“…aquele que pratica um ato de compreensão

(também no caso do pesquisador)

passa a ser participante do diálogo”.

Bakhtin (1992)

Bakhtin é um excelente autor, que eu não lembro de ter estudado, mas provavelmente eu o li durante a graduação, só que não lembro. Minha graduação foi feita mais voltada para o mercado, eu queria muito mais aprender para ir trabalhar do que para realmente me aprofundar em todos os temas e autores, e conceitos, enfim, durante a graduação eu pensava pouco em seguir carreira acadêmica. Até tentei uma vez me candidatar a uma bolsa de iniciação científica, mas não passei na entrevista porque (acho) o professor teve a impressão de que eu lia pouco (realmente, eu lia pouco livros relacionados ao jornalismo. Estava ocupada lendo os livros de psicologia e filosofia do CFCH).

Enfim, aqui estou eu tentando o mestrado e a preparação para ele já é um curso em si.

Daí que ler Bakhtin de novo está com gosto de estar lendo pela primeira vez, ainda que o “discurso” dele me soe muito familiar. Mas deve soar familiar para qualquer pessoa que goste de linguagem. Simplesmente porque … ele está certo! Acho que ele acerta em muitas coisas, e em outras, seja pretensão minha ou não, acho que poderia melhorar. 🙂

“Toda compreensão de um texto, tenha ele a dimensão que tiver, implica, segundo Bakhtin, uma responsividade e, por conseguinte, um juízo de valor. O ouvinte ou o leitor, ao receber e compreender a significação linguística de um texto, adota, ao mesmo tempo, em relação a ele, uma atitude responsiva ativa: concorda ou discorda, total ou parcialmente; completa; adapta; etc. Toda compreensão é carregada de resposta. Isso quer dizer que a compreensão passiva da significação é apenas parte do processo global de compreensão. O todo é a compreensão responsiva ativa, que se expressa num ato real de resposta”.

A gente “responde” quando compreende, daí que todo ato de compreensão é um diálogo, tem uma natureza dialógica.

p.6 José Luiz Fiorin, “Introdução ao Pensamento de Bakhtin”.

Comunicação e ensino

13 ago

Meu trabalho de conclusão de curso foi uma revista na aŕea de educação. Era uma revista que propunha usar o jornalismo como ferramenta de ensino. Então cada uma das matérias abordava uma disciplina diferente: para abordar o inglês, por exemplo, fiz uma matéria sobre intercâmbio, coloquei uma versão em português numa página e uma versão em inglês na página ao lado, assim o leitor poderia aprender enquanto lia a revista. Na matéria sobre portugues, escrevi um texto e escondi alguns erros no meio, para que o leitor os encontrasse.

Havia tambem a facilidade de misturar mais diciplinas numa só matéria, como redação, literatura e história. Uma das “materias” era na verdade um trecho do livro “Decamerão” sobre a Peste Negra, e ao final, além de um glossário com o significado das palavras mais difíceis, havia também algumas perguntas estimulando o leitor a escrever.

A revista era naturalmente voltada a estudantes do ensino médio. Mas a proposta poderia ser ampliada para outras series.

 

Das dificuldades de ser jornalista – ou de viver de jornalismo

13 ago

Eu acho que a maior dificuldade da profissão de jornalista não é nada ligado à “técnica” da profissão. Não é nada relacionado às técnicas de entrevista e reportagem, que a gente aprende na faculdade, nem a estrutura de uma matéria, nem enquadramentos de câmera, nem edição, nem fotografia. Não é nem mesmo a sociologia, a psicologia da comunicação, a linguística, nem todas as humanidades que aprendemos, ainda que eu ache de suma importância aprender tudo isso.

Acho que a dificuldade maior em nossa profissão é ir pra rua, para o mundo, e captar a realidade, se confrontar com ela, se encontrar com esta realidade tão complexa e que nos deixa perplexos.

Lembro que uma das minhas primeiras entrevistas – eu ainda estava na faculdade – foi em uma ONG que trabalhava com adolescentes infratores. Eu e minha colega pedimos para entrevistar dois meninos cujo caso fosse particularmente difícil, para colher depoimentos para a matéria. O coordenador sorriu, menou a cabeça dizendo que compreendia, levantou-se. Voltou com dois rapazes negros, um mais franzino, o outro mais forte, que sentaram-se nervosos em nossa frente.

Não tinham mais de 15 anos. O mais magrinho começou a falar, contou sua história: aos 11 anos, envolveu-se com um assassinato, depois com prostituição, roubos. O mais forte estava acanhado demais para falar. O outro o estimulou: “Vai, rapaz!”

Suando muito, visivelmente nervoso, o rapaz mais forte começou a falar diante do gravador da gente, como se fosse uma ocasião extremamente especial. Até hoje, nunca entendi por que ele estava tão nervoso. Parecia que nunca tinham parado para lhe dar ouvidos.. para que ele pudesse se expressar. Não sei, não estou dentro do coração dele para saber.

De repente, durante aquela entrevista, mesmo curta, senti uma coisa estranha. Pensei: “E se fosse eu na situação dele?” Senti que o que nos separa eram as circunstâncias, e isso mexeu muito comigo. Entendi que ali haviam garotos que provavelmente se tivessem tido uma família estruturada, apoio, segurança, escola e emprego, aleḿ de serviços básicos como moradia, segurança, alimentação, a vida deles seria muito diferente.

Só mais tarde compreendi que respondemos a estas desigualdades ou com o silêncio, ou com a crença de que “a gente tem o que merece”, muitas vezes baseada em crenças religiosas ou espirituais. Não sei até que ponto isto é verdade mesmo ou apenas a melhor explicação que encontramos para explicar o que não tem explicação.

É com isso e muito mais que o jornalista precisa trabalhar. Não é com leads, com técnicas de redação, não é com diagramções. Lidamos com “realidades”. Perplexidades.

Outra hora é o drama da vida, de todos os dias, que se desenrola diante de nós.

Entrevistei uma vez um fotógrafo já idoso. Ja no fim da entrevista, perguntei a ele se um dos seus filhos havia seguido a sua paixão por fotograar. Lentamente, seus olhos marejaram. A esposa, ao seu lado, me explicou que um dos filhos sim, mas que ele havia morrido num acidaente tempos atrás. Mostrou-me o retrato dele na parede, acima do móvel.

O que faz de um jornalista um grande jornalista, pra mim, não é o furo da reportagem, não é a pompa, nem a dicção, é a sensibilidade e o respeito pela dor alheia, pela realidade de cada um. Acredito que esta seja a verdadeira ética de nossa profissão. Como uma vez ouvi uma grande jornalista falar, o repórter “escuta”. Escuta, e depois escreve a sua versão. Tenta pintar um quadro que represente o que viu e ouviu. Isto é muito complexo. Acho que é o que torna nossa profissão ao mesmo tempo especial e dificil.

Quando eu estava na faculdade, costumava dizer que meu curso era fácil. Hoje vejo que não. Ele parece fácil, mas a verdadeira dificuldade dele aparece no dia-a-dia, na rua, nas entrevistas, nas pesquisas, na vivência da reportagem.

Segunda colonização

22 mar

“A segunda colonização, não mais horizontal, mas desta vez vertical, penetra na grande reserva que é a alma humana. A alma é a nova África que começa a agitar os circuitos dos cinemas”. Edgar Morin

Após a colonização da África e Ásia, de todo o globo, enfm, o ser humano se volta para a conquista do espaço sideral, num aspecto geográfico, territorial, e também para a conquista do território interior do homem, território infinito e pouco explorado.

“A segunda industrialização, que passa a ser a industrialização do espírito, e a segunda colonização, que passa a dizer respeito à alma, progridem no decorrer do século XX”. idem

Foto: h.koppdelaney